O Chapéu, o vestido e o absurdo

Não havia jeito de fazê-la desistir de tirar a foto de seu passaporte sem aquele chapéu e vestido. Algumas pessoas possuem uma vontade e opinião própria que são muito difíceis de serem dissuadidas, e olha que eu nem sabia o seu signo, talvez aquele da teimosia. Como se já não bastasse toda a burocracia que tivemos que passar minha amiga que mais parecia a – pelo menos eu assim achava – Mary Tyler Moore sem show de TV, e queria porque queria tirar a foto do passaporte de chapéu, chegando a discutir com o burocrata, isso sob um calor insuportável de quase 40 graus em uma fila que só aumentava, nos enchemos de coragem – ou insanidade – e seguimos em frente.

Passei a manhã toda e a tarde também tentando convencê-la de que não estávamos mais nos anos 70, e que ela não era a Mary Richards. Tudo em vão. O burocrata cada vez mais se contorcia a ponto de ficar vermelho e alterado. Eu ali permanecia só aguardando a hora de sermos colocados pelas autoridades para fora do guichê a pontapés, linchados pela multidão ou simplesmente presos. Nesta altura do campeonato só conseguia pensar no que Ionesco faria numa hora dessas, mas infelizmente ele não estava presente.

O burocrata já irritadiço ao extremo foi chamar uma colega para nos atender, na fila que só se fazia aumentar. Quando esta chegou olhou para a minha amiga de cima abaixo e abriu um sorriso cavalar. – Meu Deus que roupa linda, e esse chapéu então, é simplesmente magnífico. – Fico feliz que tenha gostado. Desse dia em diante descobri que a vida não é séria , mas somente uma reunião de eventos que se sucedem de forma insólita e repleta de absurdos. PS. A noite eu não parava de sonhar com Rhinocéros.