Nem tudo muda

Hoje um dia comum, igual a outro qualquer, similar a muitos outros, sem nenhuma novidade a vista. Há seis ou sete anos atrás o dia não foi assim, igual a qualquer outro. Condições metereológicas favoráveis, tudo pronto, apenas aguardando o caminhão de mudança. Tudo encaixotado e etiquetado, ansiedade. Novo apartamento, novo lugar, nova vida? Não, a vida com apenas algumas novas nuances, mas seria praticamente a mesma, à exceção do novo lugar, da nova habitação.

Sem carro naquele dia, pega-se uma carona com o motorista do caminhão, pressa em chegar, mas passando pelo trânsito com cuidado. Nenhum animal de estimação a levar, nem gato, cachorro ou um simples aquário, apenas móveis, TV, livros, panelas, e tudo o que pode fazer de uma casa um lugar habitável. Os bairros não são distantes, e agora o apartamento de destino é maior, os planos também.

Se começa a ter a impressão de que até o ar ficou mais limpo e respirável com maior facilidade. Se deixa para trás o velho, o chato, o zelador abelhudo, e tudo aquilo que não tem mais vez. Confiança em coisa boa. Vida nova como dizem alguns. O novo apartamento é vasto, não é mansão, mas possui vários quartos, e para cada um deles uma idéia diferente. As vezes nos perdemos aqui dentro, afinal somos apenas dois. Mas não somos tão ingênuos, e sabemos que toda vassoura nova varre bem.

Os homens da mudança queriam saber onde ficariam as estantes, as camas, e os demais móveis, para rapidamente os montarem. Um pouco aturdidos vamos mostrando os locais, que a princípio não apresentam nenhum problema, são todos belos e viáveis. Mas com o tempo tudo mudou. O escritório por exemplo foi parar em um cômodo onde praticamente não havia intimidade nenhuma, uma janela colada na janela vizinha. E que vizinha havia naquela janela. Poderia considerá-la como o jornal do bairro, sempre perguntando no que trabalhávamos, observando nosso horário de acordar, de dormir, enfim tudo o que não lhe cabia, tudo o que não lhe dizia respeito. Foi o fim; adeus intimidade. Ainda vivemos no mesmo apartamento, persianas abaixadas, pouco ruído e cortinas puxadas. Mas tenho certeza que se a vizinha for perguntada sobre o que fizemos hoje ela vai dizer: me lembro até do dia em que vocês chegaram com o caminhão de mudança, seria ela parente daquele outro zelador abelhudo? Com certeza não, porque ao que parece no fundo, bem lá no fundo, até que ela é boa gente. Mas para ser sincero tenho quase certeza que tudo muda, e nem tudo muda, e sempre nem tudo é tão terrível quanto parece.